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Histórico Histórico

Criado em outubro de 2000, o GELCO congrega profissionais (pesquisadores e professores) que atuam nas áreas de Lingüística, Línguas e Literaturas na região centrooeste do Brasil. Como entidade regional, o GELCO conta com uma rede de associados que se estende desde Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, até Goiás e o Distrito Federal, incluindo o estado de Tocantins, o qual, por um erro de um cartógrafo, hoje integra o norte do Brasil, ainda que culturalmente continue sendo parte da região centro-oeste. Mais que o nascimento de uma nova associação científica, o GELCO surgiu pela necessidade de os estudiosos da linguagem dessas "paragens brasileiras" assumirem uma identidade coerente com seus valores e suas necessidades culturais, científicas e acadêmicas. Nesse sentido, o GELCO tem buscado abrir um espaço político para o fomento e a expansão da pesquisa lingüística no centro-oeste.

Um dos propósitos da associação é o de iniciar e fortalecer o intercâmbio com outras sociedades científicas, nacionais e/ou estrangeiras, abrindo espaços para a troca de conhecimentos e de procedimentos teórico-metodológicos dentro de linhas de pesquisa voltadas para a Lingüística, cujos projetos contemplem a variação sincrônica e diacrônica, bem como a mudança lingüística. No escopo da proposta do GELCO, a língua há de ser descrita, de um lado, em termos de interações entre condições discursivas permanentes e emergentes e, de outro lado, entre condições sócio-históricas, lingüísticas e cognitivas.

No eixo sincrônico, os centros de ensino e pesquisa do centro-oeste desenvolvem pesquisas regionais, baseadas nos pressupostos teórico-metodológicos da Sociolingüística e da Dialetologia. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, florescem estudos lingüísticos voltados para variantes determinadas geograficamente e para o bilingüismo, considerando-se a influência do espanhol e das línguas indígenas, bem como as influências decorrentes do processo migratório. A posição geográfica do estado do Mato Grosso do Sul, favorecida pelas fronteiras com a Bolívia e o Paraguai, demanda a ampliação da pesquisa lingüística. Nessas regiões de fronteira, o bilingüismo e o multilingüismo são fenômenos comuns e pouco estudados_ Situações privilegiadas como a do encontro de três línguas - português, espanhol e guarani - configuram um verdadeiro laboratório natural de linguagem, uma riqueza lingüística relativamente inexplorada.

Além disso, habitado durante séculos por índios, o estado do Mato Grosso do Sul ainda conserva uma população de aproximadamente 40.000 índios, o que o destaca como berço cultural da segunda maior população indígena do pais. Registre-se que nessa zona pantaneira existem sete etnias indígenas, com algumas aldeias urbanas em via de extinção da língua e, o que mais pesa destacar, línguas sem registro escrito, o que motiva o apelo em favor de um interesse redobrado no que concerne à pesquisa em línguas indígenas no Brasil. Trata-se de levantar a bandeira de minorias lingüísticas que, apesar de usarem cada vez mais a língua portuguesa, necessitam preservar seus valores culturais e suas tradições na manutenção de suas línguas.

No eixo da lingüística dìacrônica, vem sendo desenvolvido, no estado de Mato Grosso, o projeto de pesquisa Filologia Bandeirante que tem como meta descrever o português falado na trilha dos bandeirantes paulistas ou, de modo mais especifico, o português da baixada cuiabana na época das bandeiras, século XVIII. Por outro lado, dados de pesquisas lingüísticas, voltadas para a questão do multilingüismo e contato de línguas, têm evidenciado a influência do espanhol no português cuiabano, conforme ilustram, ainda que indiretamente, os estudos de Rodrigues (1999) sobre a fonologia do português matogrossense.

Do cenário da pesquisa lingüística no estado de Goiás, destaca-se o Projeto de Educação e Cultura Indígena Maurehi, iniciado em 1993, na Aldeia Buridina, Município de Aruanã. Tal projeto resultou da preocupação de membros da comunidade Karajá, em especial o líder Maurehi, quanto ao rápido processo de assimilação que os jovens karajá vinham demonstrando, com a decorrente fragmentação da identidade Karajá em Buridina.

O objetivo principal do projeto é recriar os espaços sociodiscursivos, onde a língua Karajá sirva de intermediação entre as esferas sociais do cotidiano e aquelas especializadas, reurdindo e revitalizando a identidade Karajá. O Projeto de Educação e Cultura Indígena Maurehi - desenvolvido na aldeia Karajá de Aruanã - há quase 10 (dez) anos, sob a Coordenação de Maria do Socorro Silva, destaca-se na 54° Reunião da SBPC, mediante a participação no evento, com dançadores, contadores de histórias e educadores que brindam a comunidade acadêmica com apresentação de danças ritualísticas, ao lado da exposição ao público da dinâmica de assimilação a que a, comunidade Karajá de Buridina estava/está exposta por ser uma aldeia no centro de uma cidade turística como Aruanã, colocando em risco a identidade karajá, sua língua materna, seus rituais, sua memória mítica.

O Distrito Federal, através das linhas de pesquisa desenvolvidas no Programa de Pós-Graduação em Lingüística da Universidade de Brasília, também se oferece como um laboratório vivo de culturas que se entrecruzam, o que é evidenciado não só nos falares trazidos pelas correntes migratórias, mas, principalmente, na fala candanga, conforme ilustra o projeto de BortoniRicardo (2000) sobre "O falar candango: contato de dialetos em Brasília". O Programa de Pós-Graduação em Lingüística da UnB, pioneiro no Brasil, tem buscado aprofundar o conhecimento e a capacidade investigativa sobre a linguagem humana, particularmente sobre a realidade lingüística brasileira, da qual Brasília constitui um amálgama cultural. Distribuídas em duas grandes áreas de concentração - Linguagem: Teoria e Descrição; e Linguagem e Sociedade - cinco linhas de pesquisa reforçam a tradição do Programa de promover a competência científica, mediante o desenvolvimento de núcleos de pesquisa que contribuem para a excelência acadêmica na formação de pesquisadores e docentes para o ensino superior, cuja frente de trabalho constitui um desafio dramático no cenário brasileiro.

Enfim, nesse breve panorama do centro-oeste, ainda que traçado de maneira sucinta, pulsa uma parte da realidade lingüística brasileira que, no seu todo, clama por um novo impulso para as pesquisas em Letras e Lingüística, através da cooperação interinstitucional, seja na investigação ou na formação de equipes de recursos humanos.

O GELCO deixa, aqui, registrado o interesse em concretizar sua missão de sociedade científica, assumindo o seu papel político-acadêmico, principalmente no que concerne ao papel de mediador entre instituições interessadas na criação e implementação de projetos bilaterais de pesquisa que contemplem um dos seguintes pontos:

  • incentivo à pesquisa no âmbito das áreas de Lingüística, Línguas e Literatura na região Centro- Oeste;
  • divulgação de trabalhos científicos produzidos nas três áreas mencionadas, realizadas por estudiosos do centro-oeste;
  • promoção do intercâmbio acadêmico entre seus associados e pesquisadores, filiados a outras sociedades científicas, nacionais ou estrangeiras;
  • contribuição para o aperfeiçoamento dos cursos de Letras;
  • apoio a jovens pesquisadores hispano-americanas para participação em programas de pesquisa lingüística no centro-oeste, ligados a instituições públicas de pós graduação.
  • apoio à pesquisa das línguas indígenas no centro-oeste, bem como à política de educação para os povos indígenas, com ênfase aos programas de revitalização das línguas indígenas.

O Centro-Oeste, como todo o Brasil, necessita de empreendimentos interinstitucionais que transformem a realidade carente em promessa de riqueza futura. Dentro da teoria social do discurso, toda pesquisa lingüística deve revestir-se de uma prática social transformadora. Os projetos conjuntos, de interesse mútuo na grande área das Letras, mais que transformar a nossa realidade, representam a chance dos avanços científicos que irão alimentar a pesquisa e o ensino em todas as regiões brasileiras.




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